A Comissão de Ética Pública da Presidência da República decidiu
por unanimidade recomendar a demissão de Elano Rodrigues de
Figueiredo do cargo de diretor de Gestão da Agência Nacional de
Saúde Suplementar (ANS), após o jornal O Estado de S.Paulo revelar
que ele omitiu do currículo público a informação de ter atuado a
favor do plano de assistência médica Hapvida. Figueiredo pediu
exoneração do cargo nesta quinta-feira, 03.
"Ele podia ser advogado de quem ele quisesse, ele estava no
exercício da profissão dele. Se tivesse algum problema lá, ele que
se declarasse impedido, suspeito. A omissão é que foi o problema,
porque os senadores não o puderam questionar a respeito disso.
Você, quando vai ser examinado pelo Senado, tem de dar aos
senadores todas as informações", disse o presidente da Comissão de
Ética, Américo Lacombe. "Ele omitiu uma coisa que não podia ter
omitido. (O entendimento da comissão) Foi unânime."
A decisão da Comissão de Ética foi tomada na quarta-feira, mas
divulgada oficialmente apenas nesta quinta, após serem avisados o
chefe de gabinete pessoal da presidente, Giles Azevedo, e a
ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. "Seria muito indelicado
que a presidenta da República soubesse pela imprensa", justificou
Lacombe.
Figueiredo representou o plano de assistência médica Hapvida em
pelo menos 21 processos contra a própria ANS e contra o Ministério
da Saúde. A maioria das ações, propostas na Justiça Federal do
Ceará e na do Rio, pretendia reverter punições aplicadas à
operadora por se negar a pagar tratamento de seus segurados.
Relatório
Em um relatório de 33 páginas, o relator do processo de Figueiredo,
conselheiro Mauro Menezes, afirma que o então diretor da ANS,
"podendo apresentar currículo detalhado, contendo todas as
informações indispensáveis à apreciação do seu nome, (..) optou por
omitir a atuação em favor de entidades reguladas pelo órgão que
passaria a compor".
"No seio da administração pública, e em particular, sob o pálio dos
preceitos da ética pública, o pressuposto da transparência não
configura mero capricho nem zelo excessivo. É elemento
imprescindível, fundamental a habilitar o exame preciso do perfil
do indivíduo que se apresenta para concorrer ao exercício de função
pública de grande relevância, na qual interesses serão contemplados
ou contrariados", afirma o relator, que considerou haver "graves e
reiteradas violações éticas".
"Não há como negar que a omissão impediu o pleno acesso do público,
em especial dos parlamentares responsáveis por aprovar ou recusar
sua indicação, às informações necessárias para que fosse traçado
seu perfil profissional, a probidade de sua conduta e a integridade
dos seus posicionamentos", prossegue o relatório. "A abstenção de
tais elementos do percurso profissional do denunciado constitui,
por si só, uma falta, à luz da ética pública. Pode não constituir
infração perante a instância ético-profissional (OAB), mas perante
a CEP (Comissão de Ética Pública) não deixa de constituir".
Para o conselheiro Mauro Menezes, o ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, foi ludibriado. "O ministro de Estado de Saúde, em sua
manifestação, deixa evidente que a posição inicial do senhor Elano
Figueiredo, de abster-se de emitir juízo sobre processos que
envolvessem suas antigas assistidas, foi crucial para que o ora
denunciado fosse alçado ao cargo de diretor. Ao recomendar sua
nomeação à Casa Civil, o ministro foi ludibriado pela informação
anteriormente prestada, mas não mantida, pelo hoje diretor da ANS",
sustenta o relator. "Não o exime da referida responsabilidade (no
caso, o então diretor da ANS) o fato de ter votado a favor da
aplicação de multas às suas antigas assistidas."